Peter Morville, 30 de janeiro de 2000
Tradução: Bruno Monteiro, 26 de junho de 2003
Versão: Português de Portugal

O Manifesto de um Arquitecto de Informação

O manifesto de um Arquitecto de Informação

Arquitectos de informação de todo o mundo, uni-vos!
A conjuntura mudou. E agora, também devemos mudar!

Pensem no início dos anos noventa. Estávamos sozinhos, despidos, molhados e com frio, a lutar para sair do primordial pântano pré-web e pré-IPO.

Nós trabalhávamos em bibliotecas úmidas a catalogar livros cheios de pó em cavernas sombrias. Nós trabalhamos com os Gophers, desesperadamente, procurado formas (WAIS) de melhorar o acesso à informação. Nós éramos discretos, mas tínhamos grandes planos.

Avancemos rápido para uma dura realidade. Multiplicamo-nos como tribbles. Ainda não vi as últimas estatísticas do Departamento de Trabalho (USA), mas tenho razões para acreditar que existem, actualmente, cerca de 2431 arquitectos de informação. Começamos a conhecer-nos e a formar as nossas conferências, websites e grupos de discussão. Em suma, tornamo-nos numa comunidade.

Visto que os arquitectos de informação tendem a ser boas pessoas, muitas vezes pensamos numa comunidade em termos de boa vizinhança, conversas interessantes, partilha e preocupação, e…

Não, não, não, errado!

Nós precisamos de uma comunidade com um C maiúsculo.

Nós precisamos de definir e aumentar o nosso poder de negociação colectiva.

Precisamos de trabalhar juntos, para fazer do mundo um lugar melhor, e para nós próprios!


Liderança destemida

Pouco depois da publicação de um recente inquérito sobre os benefícios e salários dos arquitectos de informação, recebemos o seguinte e-mail de um arquitecto de informação de uma das maiores empresas de consultadoria em e-bussiness.

Excerto do e-mail:
Identidade omitida para proteger o dissidente
"Só agora tomei conhecimento disto. Vocês são impressionantes. Procuro estes dados há muito tempo. Penso que chegou o momento de nos sindicalizar-mos como outras indústrias. Estou com falta de tempo hoje, mas ficaria mais do que contente em poder ajudar-vos nesta questão".

Embora eu aprecie estes sentimentos (especialmente a parte "vocês são impressionantes"), quero que fique bem claro que pessoalmente não estou a advogar a formação de um sindicato de arquitectos de informação. De facto, não sou conhecido por ter qualquer tipo de opinião sobre sindicatos ou outra matéria de natureza política ou judicial.

De qualquer modo, a minha opinião é de que existe uma fonte de sentimento activista na comunidade de AI. Tudo o que precisamos é de um líder forte (quem não tenha medo de executivos poderosos, advogados ou oficiais de justiça prepotentes), um conjunto claro de reivindicações e alguma retórica ameaçadora. Parece que o indivíduo que escreveu este e-mail está disposto a ser o nosso líder destemido, por isso, vou restringir-me a algumas exigências sugeridas e ameaças (que não representam necessariamente a opinião deste autor, da sua empresa ou da sua mãe).

As nossas exigências

Perceber o que se pretende é muitas vezes a parte mais difícil de qualquer revolução. Poderíamos exigir salários mais elevados, mas é isso o que nos motiva? Isso faria-nos felizes? Penso que não.

O que nós queremos é COMPREENSÃO.

Queremos que os nossos colegas, patrões, pais, filhos e vizinhos da porta ao lado compreendam o que fazemos. Queremos que o mundo inteiro compreenda o quão importante é o nosso trabalho.

As nossas modestas exigências devem limitar-se a esperar que todas as pessoas compreendam o seguinte:

Serão estas experiências demasiado extremistas? É pedir muito? Claro que não. De facto, nós temos mais exigências. Muitas, muitas mais. Mas vamos dar o primeiro passo antes de fazer o caminho completo.

As nossas ameaças

Outro pré-requisito para uma revolução é uma espécie de ameaça alarmante que capture a atenção pública. A violência é demasiado desordenada e as greves de fome ferem a moral. Poderíamos ameaçar com alguma forma de afastamento ou abrandamento, mas é difícil para os arquitectos de informação gerarem, em curto prazo, o mesmo impacto catastrófico que os pilotos, enfermeiras ou jogadores de baseball.

Nós poderiamos ameaçar com a criação de terríveis arquitecturas de informação para lograr as tentativas dos utilizadores de concretizar determinada tarefa, comprar productos ou encontrar informação. Infelizmente, seria difícil obter atenção no meio da imensa massa acidental de websites e intranets existentes.

O problema é que conceber novas ameaças acaba por ser mais árduo do que possamos pensar. É aqui que entra a Comunidade. Peço aos arquitectos de informação de todo o mundo para se juntarem nesta luta justa e conceberem algumas ameaças. Por favor, façam-no de uma forma divertida, criativa, interessante e muito, muito alarmante.

Mandem as vossas ameaças e eu irei juntá-las a este manifesto.

Lembrem-se, não têm nada a temer a não ser vocês próprios (mas se preferirem manter o anonimato, basta dizer-me).